Desencaixados ( Undocked ) - Letra: Ms Jane | Composição / Co-produção : Arranjo: Suno A música faz parte da Obra literária - Tempo de Amigos
O sentimento de Jane por Felipe não cabia em um lugar só. Não era coisa de “Paradise”, dessas que nascem com o sol de verão e morrem quando a mala fecha. Era maior — atravessava ruas, conversas, silêncios, e se instalava nela como quem não pede licença.
Sem exposição , a explosão era profundamente dela. Nada parecido com Bie, Serginho e o resto da turma, que faziam do amor quase um evento público. O de Jane era diferente, um pouco parecido com Madie. O coração, para ela, sempre foi território sagrado — aberto à vida, sim, mas exigente com quem pisa. Cheio de camadas. E cada uma delas escolhia, em silêncio, quem podia entrar… sem jamais precisar se explicar.
Jane sempre foi segura sobre quem era. Para ela, o amor — assim como qualquer relação — precisava estar apoiado em virtudes. Não carregava angústias antecipadas, nem criava cenários de medo. A desconfiança só surgia quando a vida, de fato, dava sinais.
O relacionamento com Felipe foi sendo percebido aos poucos. Os amigos sabiam. E também sabiam que os dois preferiam a discrição à exposição. Ainda assim, havia gestos: praia, marisco, vôlei, remadas. Havia entrega.
Mas tudo saía do eixo quando Felipe precisava estar com a outra parte do mundo de Jane. Festas, barzinhos, passeios, música alta. Era como se algo nele travasse. A testa denunciava, as palavras sumiam. Ele não atravessava para o outro lado da vida de Jane. E aquilo, em Jane, começava a incomodar — como se, no fundo, ele não estivesse inteiro ou se não pudesse abrir mão de alguma coisa por ela.
No início daquele verão, Jane já não tinha mais compromissos com os estudos ou vôlei. Foi para Paradise. Foi para Felipe.
Mas, poucos dias depois, veio o sarampo.
Forte. Tardio. Cruel.
Vieram também as complicações. O isolamento. Dois meses inteiros dentro de casa, enquanto o verão acontecia do lado de fora.
Os pais de Felipe apareciam. Levavam notícias, perguntavam. Diziam que ele tinha vergonha. Felipe, não.
Quando Jane finalmente se viu no espelho, assustou-se. Quase onze quilos a menos. Outra imagem.
Ainda assim, quis vê-lo.
Felipe não soube chegar. Não houve iniciativa, nem alegria, nem reencontro. Talvez tenha sido o susto. Talvez outra coisa.
Mas, para Jane, bastou.
A decepção não fez barulho — só mudou tudo de lugar.
Ela não o procurou mais. Esperou que ele dissesse algo. Qualquer coisa. Até um fim.
Ele não veio.
E ela não foi.
O tempo passou. O corpo voltou. A vida também. Mas não ele.
Algumas vezes, Felipe aparecia nos mesmos lugares. Entre amigos, entre silêncios. Parecia querer dizer algo. Nunca dizia.
Jane também queria ouvir. Mas já não queria sustentar sozinha o que deveria ser dos dois.
Entendeu.
Não com raiva. Nem desespero.
Só entendeu.
Estavam crescendo.
E crescer, às vezes, é aceitar que nem tudo se perde — mas nem tudo permanece.
Depois daquele verão, ficaram assim:
desencaixados.
“Quando ninguém erra… o que exatamente dá errado?”
Continua…
🛡️
Este texto faz parte da obra “Tempo de Amigos”, escrita por Ms. Jane. Todos os direitos reservados. A reprodução, mesmo parcial, não é autorizada sem a devida permissão da autora.



